A primeira revelação, necessária, para explicar estes fatos eu ficarei devendo, simplesmente, porque não tenho a menor ideia como tudo, realmente, aconteceu.
A segunda revelação é sobre o fato de nunca ter contado esta história para ninguém... Não contei porque, inexplicavelmente, eu não lembrava... Até esta manhã, véspera de natal de 2.019, quando acordei, num sobressalto, com um barulho na minha janela... Era um beija-flor preto: um Florisuga Fusca, que esgrimia com o seu bico contra a vidraça, fazendo um barulho que parecia com Código Morse... Esfreguei os olhos, me espreguicei, pensando que era um sonho, enquanto o barulho intermitente continuava.
Levantei, fui até a janela e olhei para aquela cena inusitada: um beija-flor esgrimindo com o seu reflexo... Bem, este foi o meu primeiro pensamento sobre o fato.
Num dado momento, nossos olhos se cruzaram e eu tive a certeza de que ele olhava para mim. Fato confirmado porque ele parou de esgrimir olhou, fixamente, para mim, e, no momento da confirmação mútua de que nos olhávamos, acenou com a cabeça, como se afirmasse que a nossa troca de olhares era real. Neste momento me veio o pensamento; a frase; o gatilho que fez lembrar-me da história “secreta” até aquele momento...
— Outra vez?! Mais uma experiência maluca com um beija-flor?!
Outra vez?1 Mais uma?! Neste momento toda a história veio à tona na minha memória... Vívida como se tivesse acontecido ontem, mas, na verdade, aconteceu há muito tempo.
A primeira explicação sobre o fato é que justifica minha “fixação” pelos beija-flores... Até aquele momento, disso eu lembro muito bem, a minha única referência sobre o tema era o Augusto Ruschi, tido como o pai dos beija-flores no Brasil ou coisa parecida, oriunda de uma matéria que li não sei quando.
Bem, vamos ao fato; à primeira experiência; à revelação...
08 de setembro de 2.012; após um dia difícil, eu estava num quarto de hotel, sentado numa escrivaninha, preenchendo alguns relatórios, quando senti uma forte pontada do lado direito da cabeça, acompanhado por uma dor latejante e um início de dormência no braço esquerdo... Eu não conseguia digitar... Parei e levantei: senti a perna esquerda, presa, dormente; olhei o relógio e já passava da meia noite: eu havia perdido o jantar e as horas... Brinquei comigo mesmo:
— Isto deve ser fome!
Quando falei, percebi a minha boca meio dormente e um gosto amargo; fui até o espelho e vi que os lados esquerdos dos meus lábios pendiam numa careta muito esquisita... Imediatamente pensei:
— Caramba!!! Estou tendo um AVC!!!
Fui até o frigobar e tomei dois comprimidos de Maleato de Enalapril, 20 mg, e coloquei um comprimido de Captopril, 50 mg, embaixo da língua... Isto, segundo o médico que me atendeu pode ter salvado minha vida... Há pouco tempo eu havia sido diagnosticado como hipertenso, mas não tinha dado importância ao fato; os remédios eu tinha por acaso, faziam parte da farmácia de primeiros socorros de um viajante, ainda eram as amostras grátis que recebera no momento do diagnóstico, com uma receita pra um tratamento regular que eu não cumprira.
Tentei falar no interfone, mas não consegui me fazer entender...
Pequei a carteira, esqueci o celular, as chaves do apartamento e os chinelos... Desci para a recepção, pedi papel e caneta e anotei um número de telefone e consegui falar:
— Estou passando mal... Se alguma coisa me acontecer, ligue para este número... Por favor, chame um taxi...
O recepcionista, atônito, mal consegui fazer a ligação num telefone com teclas; o taxi demorou; resolvi arriscar; dei sorte: encontrei um taxista madrugador na praça próxima ao hotel; já passava de uma da manhã do dia nove de setembro; pedi ao taxista para me levar, com urgência, ao... Foi aí que percebi que não estava em Fortaleza ou Recife ou em outra capital... Estava numa cidade do interior do Ceará; 120 quilômetros de distância do Hospital de Urgência mais próximo, pertencente ao meu Plano de Saúde...
— Me leve ao Pronto Socorro mais próximo: estou tendo um AVC!
O taxista disparou em direção à Santa Casa de Misericórdia de Canindé (CE); na recepção, ele, explicou minha situação e fui levado, numa cadeira de rodas, para uma enfermaria onde minha Pressão Arterial foi aferida em 21/15... Minha cabeça parecia que ia explodir... Deram-me uma injeção e coloquei outro Captopril embaixo da língua... Tentei, sem sucesso, responder algumas perguntas da enfermeira que me atendia; deitaram-me numa maca... Apaguei...
Despertei, exatamente, como hoje com um barulho na janela da enfermaria; minha maca havia sido colocada ao lado de uma janela; a diferença, desta feita, era que o beija-flor, um Florisuga Fusca, estava dentro da enfermaria e debatia-se na vidraça tentando sair... Olhei em volta; a porta estava fechada; eu estava só... De onde viera aquele beija-flor? Senti braços e pernas, articulei algumas palavras, minha cabeça não doía; tudo parecia normal... Levantei fui até a janela e abri a vidraça: o beija-flor escapou como um raio, mas antes que eu me virasse, voltou, pairou à minha frente, me olhou fixamente e acenou com a cabeça: exatamente como nesta manhã...
— O que aconteceu?! Troquei de alma com um beija-flor?! Estarei Sonhando?!
Antes que eu pudesse formular alguma resposta, a porta abriu-se e, numa cadeira de rodas, empurrada por um enfermeiro, surgiu um médico... Explicou-me que eu tivera um pico de pressão, ou um princípio de AVC, ou um AVC de tronco, ou um pinçamento da medula na altura do pescoço (suspeitas: os exames nunca revelaram) e que poderia ter morrido, mas as minhas providências salvaram a minha vida... Explicou que ele, também, tivera uma versão mais forte do meu problema, fruto do estresse, e após uma conversa prolongada sobre meus hábitos alimentares, trabalho e laser, solicitou uma bateria de exames, providências e remédios para controlar a pressão arterial... Fim do atendimento médico e início de um turbilhão na minha cabeça para explicar o beija-flor... O turbilhão cessou, passou, silenciou... Sem respostas!
Só hoje, relembrando toda a história, consigo articular algumas respostas, ou, ainda, mais perguntas...
— Será que o beija-flor veio buscar minha alma?! Terá sido mais um sonho?!
Confesso que sou incapaz de responder estas perguntas, mas sei que após a primeira experiência ou sonho, pelas circunstâncias e / ou por decisões, minha vida mudou drasticamente, em todos os sentidos...
— Será que recebi uma segunda chance e está na hora de prestar contas?!
— Será um aviso de mais mudanças?!
—Será que tudo não passa de um sonho recorrente?! De que tipo?!
Sete anos se passaram, muitas águas rolaram embaixo da ponte entre as duas experiências... Confesso que a explicação de sonhos recorrentes não me satisfaz: prefiro considerar que os Espíritos dos Natais Passados, Presente e Futuros, tenham se disfarçado, nas duas ocasiões, de beija-flor para comunicar mudanças ou, ainda, “exigir”, em caso de uma segunda chance, novas mudanças, necessárias para que eu possa continuar minha história e tenha novas histórias para contar...
Prefiro considerar que, realmente, troquei de alma com um beija-flor: isso explica minha “fixação” por esses guerreiros e é melhor que qualquer outra explicação que possa ser dada: por mim ou por qualquer “psico” de plantão...
Seja como for, acredito que mudanças virão... Sejam bem-vindas! Estou pronto para vivê-las!!!
[Vital Sousa]

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