Ser chamado de louco nunca foi uma grande novidade para mim... Com o passar do tempo até me acostumei. Sobretudo porque concordo na maioria das vezes. Diante de todas as loucuras, a “criação” de outras personalidades é sem dúvida a mais louca de todas as loucuras, beirando o transtorno dissociativo de identidade ou, como diria a maioria, a total esquizofrenia. Contudo há controvérsias: a gêneses da Trinca de Va(le)tes tem explicação prosaica, lógica e até divertida.
Aguiar e Sousa são os sobrenomes dos meus pais. Então com o prenome Vital e um santo no meio, fui batizado como Vital Antonio de Sousa: esqueceram o acento do Antônio e o sobrenome Aguiar. Com o tempo, para economizar tinta e tempo, apenas, Vital Sousa. Portanto, eu sou Vital, Vital Sousa, este que vos escreve no momento, supostamente o líder, o primeiro dos três loucos, já que, para mim, apenas, um não bastaria.
Escrevo poesias desde os meus doze anos. No início era apenas dever de casa das aulas de literatura e depois para participar de concursos de poesias do colégio. Nestes concursos pediam um pseudônimo para inscrever os poemas. Embora este fosse um conceito novo, para mim foi fácil, muito fácil criar um pseudônimo. Com o nome e o sobrenome esquecidos no batismo de Vital Sousa, batizei Antonio Aguiar, o poeta, que ganharia a notoriedade que minha timidez não permitia. Resumindo: nos tempos do colégio, Antonio ou Tonny era o descolado e Vital era o esquisito.
Na crise dos trinta e poucos anos, rasguei todos os poemas ainda não publicados, deixei a poesia de lado e foquei no trabalho. Por um tempo dediquei meu ímpeto laboral a uma empresa onde o proprietário “americanizado” tinha a mania de usar o inglês como idioma oficial, mesmo que só ele e alguns funcionários dominassem o idioma. Assim, avisos e placas de sinalização e orientação eram impressos em inglês. Na porta da sala de cada departamento havia uma plaqueta com o Sobrenome e o Cargo do Gestor. Até aqui tudo bem, na época, era “moda” esse tipo de mania.
Vital não é um nome muito comum. Na maioria das vezes é utilizado como segundo nome ou sobrenome. Então, na hora de escreverem minha plaqueta, cometeram dois enganos: confundiram nome com sobrenome, Vital virou Vitor e minha plaqueta ficou assim: Mr. Vitor / Sales (Sr. Vitor / Vendas). No dia seguinte o troca-troca virou piada na preleção com os vendedores. Eu mal acabara de assumir a Gerência de Vendas e já fora despedido? Quem é Vitor Sales? Onde está Vitor Sales? A culpa é de Vitor Sales!
Assim nasceu Vitor Sales, o “fantasma” do Departamento de Vendas que de poeta e louco não tinha nada, mas completou a Trinca de Va(le)tes que mais tarde viria compor toda a obra poética deste que vos escreve, ou não, já que adotamos como slogan explicativo uma afirmação ou negação que é pura contradição: embora eu afirme ser o criador e os outros as criações, este pensamento é compartilhado por todos.
Vital - Eles dizem o que penso!
Vitor - Há controvérsias!
Antonio - Somos livres para pensar!
Minha crise dos trinta e poucos anos foi passageira: ainda com trinta e poucos anos voltei a me interessar por poesia. Desta feita, fazendo experimentações com sonetos e hai kais eróticos. Com esta temática e o foco profissional, foi oportuno o uso da assinatura de Antonio Aguiar e com temas mais amenos a assinatura de Vitor Sales. Vital Sousa só assinava crônicas, artigos sobre negócios e alguma poesia com público restrito. A diferença de estilo e forma era tão grande que um crítico sugeriu que a Trinca de Va(le)tes fossem heterônimos, fazendo alusão a Fernando Pessoa. Fiquei lisonjeado, mas recusei, à primeira vista, a identificação dos heterônimos e mais ainda a comparação com Fernando Pessoa e os seus outros Eus. O transtorno dissociativo era mais plausível.
Inicialmente como “dever de casa”, depois como “hobby” e finalmente como necessidade de calar as “vozes” que tagarelam em minha cabeça, a poesia consolidou-se na minha – ou nossas – vida. Pseudônimos ou Heterônimos? A resposta deixo, sempre, a cargo dos leitores que se aventuram ai deitar os olhos sobre minhas loucuras poéticas.
Agora, se todos, a partir destas revelações, saberão que Vital, Antonio e Vitor são a mesma pessoa, porque manter as assinaturas nos poemas como sendo de terceiros? A resposta para mim é bem simples: em primeiro lugar quero manter a originalidade dos textos, inclusive nas assinaturas; depois não me sinto totalmente autor de todos os poemas e finalmente a ideia de poder contrapor minhas ideias com outras pessoas, no momento que elas acontecem, é bastante tentadora.
Assumo que não converso comigo mesmo, falo, também, com os meus outros Eus. Uma destas conversas poderá ajudar os leitores a responder a pergunta: pseudônimos ou heterônimos? Na conversa a Trinca de Va(le)tes é instigada a definir o que é poesia...
Vital - Poesia é felicidade: quando você sente que o universo pode parar se você piscar;
Antonio - Poesia é paixão: quando você sente que o universo parou e você continua de olhos abertos;
Vitor - Poesia é amor: quando você sente que o universo move-se dentro de você.
Depois deste diálogo, o que mais posso dizer? Tirem as suas conclusões e encontre as suas respostas.
Vital Sousa ou
Vitor Sales ou
Antonio Aguiar... Sei lá!!! Decidam por mim!!! Viver me basta!!!

Comentários
Postar um comentário